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Crianças que mentem: o que os pais precisam saber para ajudar

Crianças que mentem podem estar com medo, buscando atenção ou confundindo imaginação e realidade. Entenda como agir com respeito e segurança.

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Menina com expressão pensativa olhando para o lado, sentada em um quarto infantil com brinquedos ao fundo.

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Quando uma criança mente, a pergunta costuma vir carregada de preocupação: estamos diante de uma fase, de um medo ou de algo que pede mais cuidado? Vamos olhar para isso com calma e sem rótulos.

Resposta rápida

Crianças que mentem nem sempre estão tentando enganar por maldade. A mentira pode proteger contra uma bronca, esconder medo, buscar atenção, evitar uma frustração ou nascer de uma confusão entre imaginação e realidade. O caminho mais útil é investigar o que aconteceu, conversar sem humilhar, separar a criança do comportamento e propor uma forma de reparar o dano. Também ajuda observar o exemplo dos adultos e construir uma relação em que dizer a verdade seja mais seguro do que escondê-la. Quando o padrão causa sofrimento, conflitos intensos ou prejuízos persistentes, uma avaliação em saúde mental infantil pode ajudar a família a compreender o contexto.

Resumo

  • A mentira infantil costuma comunicar uma necessidade, um medo ou uma dificuldade, e não define o caráter da criança.
  • Perguntar com curiosidade e evitar ameaças aumenta a chance de a criança conseguir contar o que aconteceu.
  • Consequências educativas devem ensinar reparação, responsabilidade e confiança, sem exposição ou humilhação.
  • O exemplo dos adultos pesa: nossos filhos observam como lidamos com erros, segredos e pequenas conveniências.
  • Se as mentiras vierem acompanhadas de sofrimento ou prejuízo persistente, buscar avaliação pode organizar os próximos passos.
Criança pequena com dedo nos lábios, em pose de segredo, em um ambiente doméstico.

Por que as crianças mentem?

Talvez você já tenha perguntado algo simples e ouvido uma resposta que não combina com o que está diante dos seus olhos. A parede está desenhada, o brinquedo sumiu, o dever ficou incompleto, mas a criança insiste: “não fui eu”. A cena pode despertar irritação. Antes de concluir que nossos filhos são desonestos, vale perguntar o que a mentira está tentando resolver.

Mentir é uma estratégia que as crianças podem usar para lidar com situações de que não gostam, especialmente quando querem escapar de uma consequência negativa, segundo a The Conversation. Isso não torna a mentira adequada, mas ajuda a gente a responder ao motivo, e não apenas ao comportamento visível.

Há também razões mais delicadas. A criança pode temer desapontar alguém querido, desejar alguma coisa, fugir de uma responsabilidade, chamar a atenção, impressionar uma pessoa ou evitar um castigo. A mentira pode esconder angústia, frustração ou medo, como descreve a Leiturinha.

Em crianças pequenas, imaginação, desejo e realidade ainda podem se misturar. Uma história contada com convicção não significa automaticamente uma intenção calculada de enganar. A criança pode estar experimentando possibilidades, repetindo uma narrativa ou tentando fazer o mundo combinar com aquilo que gostaria que tivesse acontecido.

O desenvolvimento da mentira envolve aspectos cognitivos, emocionais e sociais. A The Conversation explica que crianças pequenas ainda não antecipam as consequências das próprias ações como crianças mais velhas conseguem fazer. Por isso, uma negativa diante do desenho na parede pode ser uma tentativa imediata de escapar do desconforto, não um plano elaborado.

A influência do ambiente também importa. Crianças observam os adultos dizendo pequenas mentiras no cotidiano. Quando ouvem “não diga ao papai que você comeu biscoito”, por exemplo, podem entender que certas mentiras são aceitáveis quando parecem convenientes. O modelo de honestidade começa nas cenas comuns da casa, inclusive na maneira como os adultos admitem seus próprios enganos.

A literatura sobre o tema encontra relações entre mentira e habilidades em desenvolvimento, mas isso não autoriza rótulos. Uma meta-análise publicada pela Wiley encontrou associações estatisticamente significativas, porém pequenas, entre mentira infantil e teoria da mente, com r igual a 0,17, e entre mentira infantil e função executiva, com r igual a 0,13. Em linguagem simples, algumas habilidades de compreender a mente de outras pessoas e controlar respostas podem participar desse processo, sem explicar sozinhas cada situação.

Então, por que as crianças mentem? A resposta mais honesta é: por motivos diferentes, em momentos diferentes. O melhor ponto de partida é observar o contexto, o sentimento envolvido, o que a criança tenta evitar ou conseguir e como a família costuma reagir quando a verdade aparece. A Querida Psiquiatria recomenda esse olhar cuidadoso, porque compreender o comportamento abre espaço para orientar sem transformar a criança em seu erro.

Duas crianças brincando juntas em um parque, uma delas olhando para a outra com cumplicidade.

Até que idade é normal as crianças mentirem?

Não existe uma idade única em que mentir deixa de ser esperado. Mentiras podem aparecer durante o desenvolvimento infantil, mas o significado muda conforme a maturidade, a compreensão da realidade e a função que esse comportamento cumpre.

Aprender a mentir faz parte do desenvolvimento infantil, segundo a Leiturinha. Isso não quer dizer que toda mentira deva ser ignorada. Quer dizer que precisamos diferenciar uma experiência esperada do desenvolvimento de um padrão que está causando sofrimento ou prejuízo para a criança e para as relações.

A The Conversation relata que crianças entre três e oito anos frequentemente mentem para esconder transgressões, e que a capacidade de sustentar essas mentiras aumenta com a idade. Uma criança pequena pode negar algo muito evidente porque ainda acredita que os outros vão pensar como ela e aceitar sua versão da história.

Com o crescimento, a história pode ficar mais elaborada. A criança passa a antecipar melhor o que o adulto sabe, o que pode perguntar e quais consequências podem surgir. Esse avanço não é uma prova de mau caráter. Ele mostra que a capacidade de planejar uma resposta e considerar o ponto de vista alheio está se transformando.

O contexto ajuda mais do que uma idade isolada. A gente pode observar se a criança consegue reconhecer o que aconteceu depois de se acalmar, se demonstra preocupação com quem foi afetado, se aceita reparar o erro e se as mentiras aparecem apenas em situações específicas ou atravessam muitos ambientes.

Também é importante não confundir privacidade com mentira. Ter pequenos segredos pode fazer parte da vida infantil, e a privacidade merece respeito, como lembra a Leiturinha. Uma surpresa preparada para alguém, uma brincadeira imaginativa e a recusa em contar algo íntimo não são iguais a esconder repetidamente situações que colocam a criança ou outra pessoa em risco.

Se a criança mente com frequência para lidar com medo, pressão, conflitos ou vergonha, a pergunta deixa de ser apenas “qual é a idade?” e passa a ser “o que está difícil demais para ela contar?”. Quando há sofrimento emocional importante, mudanças marcantes no comportamento ou prejuízo persistente nas relações e na escola, uma avaliação profissional pode ajudar a entender o quadro sem antecipar um diagnóstico.

Mãe conversando com o filho em casa, ambos sentados à mesa, com expressão séria.

Como corrigir uma criança mentirosa?

Para corrigir uma mentira, a gente precisa combinar limite claro com segurança emocional. Primeiro, investigue o que aconteceu e o que levou a criança a esconder a verdade; depois, converse sobre o impacto, proponha reparação e ajuste a resposta dos adultos para que a honestidade seja possível.

Identificando a mentira

Antes de confrontar, observe o que você realmente sabe. Perguntas acusatórias, como “por que você está mentindo?”, podem fechar a conversa. Uma abordagem mais útil descreve os fatos: “Eu vi o copo quebrado no chão e você disse que não mexeu nele. Quero entender o que aconteceu”.

Crianças geralmente contam mentiras fáceis de detectar pelos adultos, como negar um desenho feito na parede. A The Conversation observa que uma criança de três ou quatro anos pode negar a autoria mesmo diante de uma evidência clara. Nessa situação, insistir em uma confissão perfeita pode transformar o diálogo em uma disputa de poder.

Quando a família já sabe o que ocorreu, não é preciso criar uma armadilha para fazer a criança admitir. Podemos apresentar a informação com firmeza e abrir espaço para a explicação. O objetivo é alcançar a verdade e ensinar responsabilidade, não vencer um interrogatório.

Também vale olhar o padrão. A mentira aparece depois de uma regra específica? Surge quando a criança está cansada, com medo ou tentando receber atenção? Acontece com mais frequência em casa, na escola ou entre irmãos? Essas pistas ajudam a escolher uma resposta mais precisa.

Conversando sobre a verdade

Escolha um momento em que todos consigam se acalmar. Fale de maneira direta, com palavras simples e sem discursos longos. Podemos dizer: “A verdade ajuda a gente a resolver o problema. Mesmo quando algo dá errado, você pode me contar”.

Explique a diferença entre comportamento e identidade. Em vez de “você é mentiroso”, prefira “você contou algo que não aconteceu, e precisamos conversar sobre isso”. A criança não deve sair da conversa acreditando que uma escolha difícil define quem ela é.

Para crianças mais velhas, podemos explicar que a mentira abala a confiança e afeta os relacionamentos. A Leiturinha também destaca que conversar francamente sobre as mentiras e suas consequências é importante para o desenvolvimento. O foco não precisa ser provocar culpa, mas mostrar como a informação falsa muda o que as pessoas conseguem fazer juntas.

Dê espaço para a criança contar a parte emocional. “Você ficou com medo de eu brigar?”, “Você achou que eu ficaria decepcionado?” ou “Você queria que eu prestasse atenção?” são perguntas que ajudam a chegar à necessidade escondida. Depois, a gente mantém o limite: entender o motivo não significa aprovar a mentira.

Se a criança disser a verdade depois de negar, reconheça a coragem sem apagar o problema: “Obrigado por me contar. Agora vamos pensar em como consertar”. Essa resposta ensina que a verdade pode trazer uma conversa difícil, mas não precisa trazer humilhação.

Estabelecendo consequências

Consequência educativa é diferente de vingança. Ela deve ter relação com o que aconteceu, ser possível de cumprir e ensinar reparação. Se a criança escondeu uma bagunça, pode participar de organizá-la. Se atribuiu a outra pessoa algo que fez, precisa corrigir a informação e reparar o vínculo.

A Leiturinha aponta que a possibilidade de reparar um erro pode ser mais eficiente do que um castigo. A reparação pode incluir um pedido de desculpas, a reconstrução de algo danificado ou uma conversa com quem foi afetado. Não precisa ser uma cena pública nem uma punição que aumente a vergonha.

Evite consequências desproporcionais. A The Conversation alerta que, quando a criança recebe punição excessiva por dizer a verdade, ela pode aprender que mentir evita a reprimenda. A resposta adulta deve proteger a segurança e ensinar responsabilidade, sem tornar a honestidade um risco emocional maior do que o próprio erro.

Se a criança repete a mentira, mantenha o limite com consistência. Podemos reduzir temporariamente uma atividade ligada ao problema, acompanhar mais de perto uma responsabilidade ou refazer uma combinação familiar. O importante é explicar a relação entre a escolha e a consequência, sem ameaças que depois não serão cumpridas.

Medo de punição

O medo costuma aparecer por trás de muitas negativas rápidas. Talvez você já tenha visto a criança esconder uma tarefa incompleta porque espera uma bronca, ou culpar o irmão para evitar perder um privilégio. Nesses momentos, a mentira pode estar tentando criar alguns minutos de proteção.

Pergunte com calma: “O que você imaginou que aconteceria se me contasse?”. A resposta pode revelar que a criança espera gritos, decepção, comparação ou uma punição que parece impossível de suportar. Isso não elimina a responsabilidade, mas mostra onde a comunicação precisa mudar.

Podemos dizer: “Você ainda vai precisar lidar com o que aconteceu, mas contar a verdade ajuda a gente a resolver”. Essa combinação de firmeza e previsibilidade é mais clara do que prometer que nada acontecerá. A criança precisa saber que a família não vai fingir que o erro não existiu, e também que não será atacada por admitir a realidade.

Se os adultos perceberem que reagem com muita intensidade, é válido fazer uma pausa antes de conversar. Educar com respeito não significa aceitar tudo. Significa escolher uma resposta que ensine em vez de empurrar a criança para mais segredo.

Desejo de atenção

Algumas mentiras aparecem como histórias grandiosas, relatos de conquistas que não aconteceram ou queixas que crescem a cada pergunta. Em vez de começar chamando a criança de exagerada, tente perceber o que ela busca naquele momento: conexão, escuta, reconhecimento ou ajuda para lidar com uma frustração.

Podemos responder ao sentimento sem confirmar um fato inventado. “Parece que você queria muito que isso tivesse acontecido” acolhe a emoção. Em seguida, separe fantasia e realidade: “Agora me conte o que aconteceu de verdade”. A criança recebe atenção sem aprender que precisa inventar para ser ouvida.

Também ajuda oferecer momentos previsíveis de conversa e interesse genuíno pela rotina. Perguntas específicas, presença durante uma atividade e reconhecimento de esforços reais podem reduzir a necessidade de disputar atenção por meio de histórias. O vínculo não deve depender de a criança ter uma narrativa impressionante para contar.

Se a busca de atenção vier acompanhada de sofrimento, isolamento ou conflitos repetidos, procure compreender o contexto mais amplo. O comportamento pode estar pedindo uma escuta que a criança ainda não sabe solicitar diretamente.

Confusão entre realidade e imaginação

A imaginação é parte importante da infância. Uma criança pode contar que viu um dragão, que ganhou uma competição imaginária ou que um brinquedo falou com ela dentro de uma brincadeira. Nesses casos, o tom da conversa importa: podemos entrar na fantasia quando ela é apresentada como brincadeira e, depois, ajudar a nomear o que é inventado e o que ocorreu.

Quando a criança parece realmente confundir uma narrativa com um acontecimento, evite ridicularizar. Pergunte o que ela lembra, o que imaginou e o que alguém contou. Recontar a sequência com calma pode ajudá-la a organizar as informações.

Também devemos considerar desenvolvimento, cansaço, ansiedade e experiências recentes. Se a confusão for intensa, persistente, causar medo ou vier acompanhada de mudanças importantes no funcionamento da criança, uma avaliação profissional é indicada para compreender o que está acontecendo.

O limite pode ser simples: “Na brincadeira, podemos imaginar. Quando estamos contando o que aconteceu de verdade, precisamos dizer o que foi imaginação”. Assim, a criança aprende que fantasia tem espaço, mas não deve ser usada para confundir ou ferir outras pessoas.

Pai ajoelhado conversando com o filho no quarto, olhar compreensivo.

Como lidar com as mentiras das crianças?

Dê o exemplo

Nossos filhos observam mais do que parece. A Leiturinha afirma que as crianças costumam agir de forma semelhante aos adultos ao redor, e que a melhor forma de educar continua sendo o exemplo.

Isso aparece em situações corriqueiras. Se um adulto pede que a criança esconda uma informação de outro responsável, ela pode entender que a honestidade depende da conveniência. Se o adulto admite “eu errei e tentei disfarçar”, oferece uma aula concreta sobre responsabilidade.

Não precisamos contar tudo às crianças, nem transformar cada conversa adulta em explicação. Podemos proteger a privacidade dos adultos sem ensinar que esconder a verdade é sempre a saída. Uma frase simples ajuda: “Isso é uma conversa privada entre adultos, não é um segredo para você carregar”.

Quando erramos, reparar também educa. Pedir desculpas, corrigir uma informação e cumprir o que combinamos mostram que honestidade não é perfeição. É a disposição de voltar à realidade e cuidar do impacto do que fizemos.

Crie um ambiente de confiança

Confiança não significa ausência de regras. Significa que a criança consegue trazer um problema sem esperar humilhação, ameaça ou exposição. A Leiturinha destaca que uma relação de confiança ajuda os pequenos a se sentirem seguros para contar a verdade.

Isso se constrói em momentos pequenos: ouvir até o fim, evitar interrogatórios, manter combinados claros e não usar uma confissão antiga para atacar a criança em toda discussão futura. Quando a família cumpre o que diz, a criança aprende que os limites são previsíveis.

A criança também merece privacidade. Ter pequenos segredos pode ser normal, e a privacidade deve ser respeitada. Ao mesmo tempo, segredos que envolvam medo, ameaça, toque inadequado, risco ou pedido de silêncio de um adulto precisam ser levados a sério. Nesses casos, a prioridade é segurança e proteção, não exigir que a criança prove tudo sozinha.

Chamar a atenção em público pode gerar constrangimento e culpa, como lembra a Leiturinha. Se for necessário corrigir, procure um espaço reservado. A criança pode aprender que há consequências sem aprender que precisa esconder seus erros para preservar a própria imagem.

Ensine sobre empatia e honestidade

Honestidade fica mais compreensível quando é ligada às relações. Podemos perguntar: “Como você acha que seu irmão se sentiu quando ouviu uma coisa que não era verdade?” ou “O que poderia ajudar a recuperar a confiança?”. Assim, a conversa vai além de obedecer a uma regra e chega ao impacto sobre outras pessoas.

Explique que mentir pode magoar, sem transformar a criança em alguém mau. Para crianças mais velhas, fale sobre confiança: quando as pessoas recebem informações falsas, fica mais difícil tomar decisões e cuidar umas das outras.

Ensine alternativas práticas. A criança pode dizer “eu não sei”, “eu esqueci”, “eu fiz, mas fiquei com medo”, “eu preciso de ajuda” ou “eu não quero responder agora”. Ter frases disponíveis reduz a pressão de inventar uma resposta no impulso.

A honestidade também precisa caber nos limites da idade. Não exigimos que uma criança pequena explique sentimentos complexos com palavras adultas. A gente ajuda nomeando: medo, vergonha, frustração, vontade, confusão. Quando o sentimento ganha nome, a mentira pode deixar de ser a única forma de comunicação.

Para aprofundar esse olhar sobre o cotidiano da família, pode ser útil refletir sobre como a gente também erra ao educar um filho. O objetivo não é buscar uma casa sem conflitos, mas construir reparação depois deles.

Criança sentada em uma cadeira, olhando para a câmera com expressão inocente.

Crianças e direitos: o que os pais devem saber

Falar de crianças que mentem também pede cuidado com direitos. A criança não é propriedade dos adultos e não deve ser tratada como alguém sem voz. Ela precisa de proteção, respeito, privacidade compatível com sua segurança e oportunidade de ser ouvida em assuntos que dizem respeito à sua vida. A forma concreta como esses direitos se aplicam depende da situação e da legislação vigente.

Na prática, isso muda a maneira de corrigir. Expor a criança em grupos de família, publicar sua imagem para provocar vergonha, ameaçar abandono ou forçar uma confissão diante de outras pessoas pode aumentar o sofrimento. Uma abordagem respeitosa busca informação, protege a integridade e evita transformar a correção em humilhação.

Direito à proteção não significa deixar de investigar. Se a mentira envolve violência, abuso, negligência, coerção ou medo de alguém, o adulto responsável precisa priorizar a segurança e buscar orientação adequada. Não é papel da criança conduzir sozinha uma apuração nem carregar a responsabilidade por proteger os adultos.

Também podemos ensinar que a criança tem direito de pedir ajuda e de falar com um adulto de confiança. Ela pode não conseguir narrar tudo de uma vez. Escutar sem pressionar, registrar o que foi dito com cuidado e procurar os canais apropriados pode ser mais protetivo do que exigir uma história perfeita.

A honestidade, nesse contexto, não deve virar uma ferramenta de controle total. Respeitar direitos inclui diferenciar uma informação necessária para proteger a criança de uma invasão constante de sua intimidade. A família pode estabelecer limites de segurança e, ao mesmo tempo, reconhecer que nossos filhos têm sentimentos, opiniões e espaço próprio.

Ilustração de uma criança correndo em direção a um adulto em um campo aberto.

Crianças desaparecidas e a importância da verdade

A expressão “crianças desaparecidas” pode despertar medo imediato. Por isso, é importante falar com seriedade e sem transformar qualquer mentira infantil em sinal de desaparecimento. Não devemos criar uma associação automática.

Ainda assim, ensinar a importância da verdade pode ajudar em situações de segurança. A criança precisa saber que pode contar onde esteve, com quem falou, se alguém pediu segredo e se algo a deixou desconfortável. O adulto deve ouvir sem bronca imediata, porque medo de punição pode dificultar que a criança peça ajuda.

Converse com linguagem simples sobre informações importantes, como o nome dos responsáveis, formas de pedir ajuda e a diferença entre uma surpresa temporária e um segredo que causa medo. O conteúdo deve ser adequado ao desenvolvimento e reforçado em situações cotidianas, sem criar vigilância ou pânico.

Se uma criança não for localizada, a família deve agir imediatamente pelos canais oficiais de emergência e segurança pública da sua região. Não é necessário esperar para começar a buscar ajuda. Nesse momento, informações verdadeiras sobre horários, locais, roupas, contatos e possíveis deslocamentos podem orientar as providências.

Depois de uma situação de risco, evite interrogar a criança como se ela fosse culpada. Primeiro, garanta acolhimento e segurança. Em seguida, busque compreender o que ocorreu e considere apoio profissional, especialmente se houver medo intenso, silêncio persistente ou sinais de sofrimento.

A mensagem central é simples: contar a verdade deve ser apresentado como uma forma de receber ajuda, não como uma promessa de que ninguém ficará chateado. A família pode continuar firme sobre segurança sem assustar a criança com cenários que ela não consegue processar.

  • Entender uma negativa diante de uma evidência clara → Descreva o que você viu, pergunte o que aconteceu e evite transformar a conversa em interrogatório.
  • Ajudar uma criança que mente por medo de bronca → Mantenha a consequência relacionada ao erro, mas deixe claro que contar a verdade permite resolver o problema com segurança.
  • Lidar com histórias inventadas para chamar atenção → Acolha a vontade de ser ouvida, peça a separação entre imaginação e realidade e ofereça atenção para fatos e sentimentos reais.
  • Ensinar honestidade no cotidiano → Admita seus próprios erros, corrija informações e mostre que privacidade não é o mesmo que segredo perigoso.
  • Entender um padrão persistente de mentiras → Observe os contextos e procure avaliação em saúde mental infantil quando houver sofrimento ou prejuízo nas relações e na rotina.
  • A família está diante de uma mentira pontual e a criança consegue conversar depois de se acalmar.: Use uma conversa breve, limite claro e reparação relacionada ao ocorrido.
  • A criança mente principalmente quando teme bronca, rejeição ou exposição.: Revise a intensidade das reações adultas e torne a verdade mais segura, sem retirar a responsabilidade pelo erro.
  • As mentiras são frequentes, causam sofrimento ou aparecem junto de mudanças importantes no comportamento.: Busque uma avaliação cuidadosa em saúde mental infantil para compreender o contexto e organizar o cuidado.

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Perguntas frequentes

Toda criança que mente está sendo desonesta?

Não. A mentira pode estar ligada a medo, atenção, frustração, desejo, imaginação ou tentativa de evitar uma consequência. O comportamento precisa de limite, mas não define sozinho o caráter da criança.

Como devo reagir quando sei que meu filho está mentindo?

Descreva o que você sabe sem criar uma armadilha, fale com calma e pergunte o que aconteceu. Depois, explique o impacto, mantenha o limite e proponha uma forma de reparar o erro.

Punir a mentira faz a criança parar?

Punições excessivas podem aumentar o medo e ensinar que esconder a verdade é mais seguro. Consequências relacionadas ao ocorrido, reparação e conversas previsíveis tendem a ensinar mais do que humilhação.

E se a criança mentir para chamar atenção?

Acolha a necessidade sem confirmar uma história inventada. Você pode dizer que entende a vontade de ser ouvida e, em seguida, pedir que ela conte o que aconteceu de verdade.

Como diferenciar mentira de imaginação?

Observe o contexto e pergunte o que foi brincadeira, imaginação e acontecimento real. Evite ridicularizar. Se a confusão for intensa, persistente ou causar sofrimento, busque avaliação profissional.

A criança tem direito à privacidade?

Sim, a privacidade deve ser respeitada de forma compatível com a segurança. Isso não impede os adultos de investigar situações de risco, violência, ameaça ou medo e buscar proteção adequada.

O que fazer se uma criança desaparecer?

Aja imediatamente pelos canais oficiais de emergência e segurança pública da sua região. Reúna informações verdadeiras sobre o ocorrido e priorize a segurança, sem transformar a criança em culpada.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure orientação quando as mentiras vierem acompanhadas de sofrimento, medo intenso, conflitos persistentes, prejuízos na escola ou nas relações, ou quando a família não consegue compreender o padrão.

Glossário

Mentira infantil
Informação que não corresponde ao que aconteceu, usada por uma criança por motivos que podem incluir medo, desejo, atenção, imaginação ou tentativa de evitar consequências.
Reparação
Ação que busca cuidar do impacto de um erro, como corrigir uma informação, organizar o que foi bagunçado ou pedir desculpas.
Teoria da mente
Habilidade de compreender que outras pessoas podem ter pensamentos, sentimentos e conhecimentos diferentes dos nossos.
Função executiva
Conjunto de habilidades usadas para controlar impulsos, planejar ações, manter informações e ajustar o comportamento.
Privacidade
Espaço pessoal que merece respeito, sempre considerando a necessidade de proteção e segurança da criança.
Mariana Aquino Lima Gomes Freire

Escrito por

Mariana Aquino Lima Gomes Freire

Querida Psiquiatria

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